A Eno Cultura deu início ao Brasil em Prova, um novo projeto dedicado a analisar de forma técnica as diferentes regiões e estilos de vinhos do Brasil.
O objetivo do Brasil em Prova não é estabelecer um ranking ou um sistema de pontuação de vinhos, mas criar um espaço de escuta, avaliação e reflexão sobre o que vem sendo produzido no país, com vinhos de uma mesma região, estilo ou categoria em degustações às cegas, conduzidas por um painel de degustadores qualificados, a fim de identificar tendências de mercado, bons projetos, compreender desafios técnicos e ampliar a conversa sobre o vinho brasileiro a partir de uma análise criteriosa.
Confira abaixo os comentários sobre a primeira edição, que teve como tema os vinhos brancos da Serra da Mantiqueira e entorno.
O nosso recorte
Para estreia do Brasil em Prova, optamos por realizar um recorte de região e estilo. Muito vem se discutindo sobre os Syrahs da Serra da Mantiqueira, mas é um fato que os brancos da região vêm se destacando por sua qualidade e tipicidade – ainda que incipiente – o que nos levou a elegê-los como protagonistas deste primeiro painel.
Ao todo, foram degustados 16 vinhos, incluindo as variedades Sauvignon Blanc, Viognier, Chenin Blanc, Marsanne e blends destas mesmas castas com outras castas brancas, como Chardonnay e sémillon. Todos foram avaliados às cegas, sem identificação de rótulo ou produtor durante a prova.
O painel foi formado por oito degustadores convidados, incluindo DipWSETs, sommeliers, professores da Eno Cultura e profissionais relevantes do mercado. Ao longo da degustação, foram colhidas impressões técnicas sobre expressão aromática, equilíbrio, textura, acidez, uso de madeira, tipicidade varietal e potencial gastronômico.
Degustadores da edição
- Thiago Mendes, Founder e CEO da Eno Cultura
- Tiago Machado Menezes, Sommelier do Tuju
- Marcelo da Fonseca, Sommelier do Evvai
- Fabio Lobosco Silva, DipWSET e professor da Eno Cultura
- Cecilia Vergara, DipWSET e professora da Eno Cultura
- Aline Mabel, PhD em Viticultura, Diretora da Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno (ANPROVIN) e da Associação Brasileira de Enologia (ABE)
- Karene Vilela, DipWSET, MW student
- Fernando Danelon Leonhardt, DipWSET
Uma região em construção
A primeira leitura do painel é clara: os brancos da Serra da Mantiqueira e entorno têm entregado vinhos com maturidade técnica e diversidade de estilos.
Há frescor, boas construções, produtores atentos à qualidade e rótulos que apontam caminhos promissores. Ao mesmo tempo, a degustação mostrou uma região ainda em construção, especialmente quando o assunto é tipicidade e identidade.
A Sauvignon Blanc foi a variedade mais representada na prova (9 vinhos em um total de 16), o que confirma a sua relevância na região. Mas também ficou evidente que a casta ainda assume expressões bastante distintas entre os produtores. Em alguns vinhos, apareceu com maior nitidez varietal, marcada por notas de maracujá e herbais. Em outros, a leitura foi mais ampla, com maior influência de textura, maturação, borras, madeira ou escolhas de vinificação.
De maneira geral, a Mantiqueira mostra potencial e energia, embora ainda não seja possível dizer que existe assinatura única para seus brancos.
Acidez: virtude e desafio
A acidez apareceu como um dos elementos centrais da degustação.
Nos vinhos mais apreciados pelo nosso painel de degustadores, ela contribuiu para frescor, tensão e propensão à harmonização com a comida. Em outros, apareceu de forma mais dura, por vezes desconectada da fruta ou da textura, o que tornou alguns dos vinhos desequilibrados.
Esse parece ser um dos grandes desafios para os brancos da região: domar a acidez de forma que ela aporte frescor e elegância, ao invés de puro ataque. Quando bem integrada, a acidez contribuiu para vinhos vibrantes e gastronômicos. Quando destacada, tornou alguns exemplares menos equilibrados, mais agressivos ou curtos.
Madeira: caminho de ambição, mas ainda exige precisão
O uso da madeira também foi um tema que gerou debates constantes.
É verdade que a madeira pode ser uma ferramenta importante para brancos de maior estrutura, especialmente quando contribui com textura, complexidade e amplitude de boca. Mas este é um recurso que pede cuidado. Em alguns casos, a madeira resultou em tostado dominante, baunilha marcada, amargor final ou sensação de desconexão entre fruta e barrica. Os melhores resultados vieram quando a barrica não tentou substituir a fruta, mas ampliar sua expressão.
Os vinhos que mais chamaram atenção
Entre os vinhos degustados, alguns se destacaram pela consistência técnica, originalidade ou potencial de desenvolvimento.

O Grama, da Casa Tés, foi um dos vinhos de maior consenso do painel. Elaborado a partir de Sauvignon Blanc e Sémillon, mostrou boa construção, maturidade de fruta, textura e integração da madeira. Foi percebido como um branco gastronômico, equilibrado e bem resolvido, com sofisticação sem perder frescor.

Entre os Viogniers, o L’Origine Viognier foi o principal destaque. A variedade apareceu com boa expressão aromática, fruta madura, textura e equilíbrio. O vinho apontou uma direção consistente para o Viognier no recorte degustado, especialmente pela combinação entre volume de boca, perfume coerente com o resultado final e frescor.

Outro vinho que gerou forte interesse foi o Magris Marsanne, da Stella Valentino. Mais do que um vinho pronto, ele foi lido como um vinho de futuro. A Marsanne trouxe uma conversa menos óbvia para o painel, com estrutura, complexidade e potencial, e foi descrita por uma das degustadoras como “a casta do futuro”. Ainda há espaço para maior polimento, especialmente na integração da madeira e do amargor final, mas a aposta nessa casta diferente e fora do convencional chamou atenção.
Este foi um ponto reforçado pelos degustadores: há espaço para brancos brasileiros de maior ambição fora do eixo das variedades mais previsíveis.

O Amana Una Sauvignon Blanc também se destacou por apresentar uma interpretação mais estruturada da variedade. Com passagem por barricas francesas, mostrou textura, presença e frescor. A madeira apareceu aqui como parte importante da construção do vinho, resultando em um Sauvignon Blanc de maior complexidade e potencial de evolução.

Já o 1300 Estate Sauvignon Blanc chamou atenção por sua originalidade. Não foi um vinho de consenso absoluto, mas foi um dos rótulos mais autorais da prova. Com perfil menos óbvio, mais textural, redutivo e salino, ele fugiu da expressão aromática clássica do Sauvignon Blanc. É um vinho que talvez converse mais com um público de nicho, mas que certamente vale conhecer.
Outros bons achados
Além dos principais destaques, alguns vinhos contribuíram de forma importante para a leitura da região.

O Floresta São Pedro Sauvignon Blanc apareceu como um Sauvignon Blanc bem elaborado, com frescor, equilíbrio e boa expressão varietal. Foi um dos vinhos que ajudou a sustentar a percepção de que a casta tem construído efetiva tipicidade na região.

O Bonventi Sauvignon Blanc trouxe uma proposta de textura e elaboração menos convencional, com passagem por esfera de concreto e inox. Mais do que expressão da Sauvignon Blanc, chamou atenção pelo trabalho de construção de boca.

O Areia Branca Chenin Blanc ampliou a discussão varietal do painel. A presença da Chenin Blanc foi importante para mostrar que o futuro dos brancos da região não precisa depender apenas da Sauvignon Blanc. O vinho apareceu como uma alternativa de frescor, textura e potencial gastronômico.

O Vale da Pedra, da Guaspari, mostrou a consistência de um produtor já consolidado na região. Elaborado a partir de Sauvignon Blanc, Viognier e Sémillon, apresentou boa estrutura, equilíbrio e perfil gastronômico, com a madeira trazendo potência e construção em boca. É um vinho que reforça a capacidade da região de entregar brancos bem polidos e tecnicamente consistentes.
Além dos rótulos destacados acima, outros vinhos foram mencionados pelo painel como amostras dignas de nota, ainda que sem o mesmo grau de consenso ou protagonismo editorial.
O Sombra do Jequitibá, da Rio Manso, o Lado B, da Casa Almeida Barreto, o Sabina Entre Serras, da Sacramentos, e o Mar de Morros Sauvignon Blanc, da Artesã, contribuíram para ampliar a leitura do painel sobre os diferentes caminhos possíveis para os brancos da Mantiqueira e entorno.
São vinhos que ajudam a mostrar uma região em movimento, com produtores testando variedades, estilos de vinificação, níveis de maturação, uso de madeira, textura e diferentes formas de expressão da acidez. Ainda que não tenham aparecido entre os principais destaques da degustação, reforçam a diversidade do recorte e indicam projetos que merecem ser acompanhados nas próximas safras.
Mais do que apontar apenas os vinhos de maior consenso, o painel também revelou a importância de observar esses rótulos em desenvolvimento: são eles que ajudam a formar uma imagem mais completa da região, com seus acertos, buscas e possibilidades de evolução.
O que a degustação revelou
A primeira edição do Brasil em Prova mostrou que os brancos da Serra da Mantiqueira e entorno vivem um momento promissor. A região já tem bons vinhos, bons produtores e diferentes caminhos de interpretação. Há Sauvignon Blancs mais diretos e típicos, brancos com madeira, blends altamente gastronômicos, variedades alternativas e propostas de maior ambição.
Mas o painel também deixou claro que ainda há desafios importantes. A busca por identidade regional, o equilíbrio da acidez, a integração da madeira e a definição de estilo serão pontos centrais para a evolução dos brancos da região. A região da Mantiqueira não deve ser analisada apenas pelo que já existe. Especialmente em se tratando de uma região ainda jovem, há de olhar para o futuro e o que essa região pode vir a entregar.
E é justamente nesse ponto que o Brasil em Prova pretende atuar. Mais do que trazer recomendações de vinhos que devem ser provados, o projeto busca acompanhar o desenvolvimento do vinho brasileiro com atenção técnica e profundidade. A cada edição, a Eno Cultura pretende reunir regiões, estilos e produtores em torno de uma pergunta essencial: o que o Brasil está colocando em prova agora?
Nesta primeira resposta, os brancos da Mantiqueira e entorno mostraram que há muito a observar, e excelentes motivos para acompanhar de perto.



