Produzir vinho é o sonho de muitos apaixonados pelo tema. Mas transformar esse sonho em realidade exige muito mais do que gostar de vinhos. Essa jornada exige conhecimento, paciência, investimento, resiliência, autoralidade e, sobretudo, disposição para assumir riscos.
A trajetória da professora Ana Borges, da Eno Cultura, reúne todos esses elementos.
Agrônoma, enóloga, gastrônoma, consultora, empresária e professora, Ana decidiu há alguns anos dar um passo além da sala de aula. Em vez de apenas estudar, ensinar e avaliar vinhos, ela escolheu enfrentar um dos maiores desafios do setor: produzir os seus próprios.
A decisão começou a ganhar forma em 2018, quando teve a oportunidade de participar de uma safra ao lado de Anselmo Mendes, um dos nomes mais respeitados do vinho português. A experiência prática reforçou algo que já existia dentro dela: o desejo de construir um projeto próprio.
A escolha do caminho mais difícil
Em 2021, Ana e sua família adquiriram uma propriedade na Serra da Moeda, em Minas Gerais. A escolha do local foi resultado de meses de procura por um terreno que reunisse as características necessárias para a viticultura: orientação solar adequada, inclinação correta, boa drenagem e condições para o desenvolvimento das videiras. Mas encontrar o terreno era apenas o começo desse desafio.
Enquanto muitos produtores apostam em variedades já consolidadas para reduzir riscos e acelerar resultados, Ana optou por um caminho menos previsível. Em vez de reproduzir fórmulas já testadas, decidiu investigar quais uvas realmente se adaptariam às condições específicas da sua região.
“Eu queria realmente fazer uma coisa diferente. Eu queria algo muito com uma identidade minha. Entender o que funciona na sua região é fundamental. Hoje a gente tem cerca de 60 vinícolas legalizadas em Minas, e a grandissíssima maioria planta Syrah. Eu não planto Syrah.”
O projeto começou com a importação de mudas italianas e a implantação de um amplo campo experimental. Ao longo dos anos, foram testadas 29 variedades diferentes, muitas delas pouco conhecidas do consumidor brasileiro.
Logo no início da implantação do vinhedo, chuvas intensas provocaram perdas significativas, eliminando cerca de 40% das plantas ainda jovens. O episódio, que poderia ter levado a uma mudança de estratégia, reforçou a convicção de que era necessário continuar aprendendo e testando.
Hoje, após anos de observação e experimentação, o vinhedo conta com variedades selecionadas a partir dos resultados obtidos no campo, que refletem uma identidade e autoralidade construídas a partir do território e da história de Ana Borges.
A construção de sua identidade própria
O objetivo de Ana sempre foi criar algo que refletisse suas convicções pessoais sobre agricultura, enologia e estilo de vinho. Os seus vinhedos adotam um manejo sustentável, sem uso de herbicidas ou inseticidas, priorizando práticas de menor impacto ambiental. O trabalho exige mais dedicação e mais mão de obra, especialmente considerando as condições de umidade da região, mas está alinhado com a visão que ela deseja colocar em prática.
Essa busca por autenticidade também aparece no produto final. Enquanto muitos dos vinhos produzidos atualmente em regiões de inverno brasileiras seguem caminhos mais previsíveis, Ana decidiu explorar estilos menos convencionais. O resultado inclui vinhos naturais, espumantes do método ancestral e rótulos elaborados a partir de variedades raramente encontradas no mercado nacional.
Os primeiros rótulos da Vinha Verso traduzem também outra paixão de Ana: a música brasileira. Anunciação, inspirado na canção de Alceu Valença, Sonhos, referência à obra de Caetano Veloso, e Cais, uma homenagem a Milton Nascimento, inauguram um projeto em que vinho, arte e identidade caminham juntos. Até os rótulos reforçam esse caráter autoral: o de Sonhos foi criado a partir de uma colagem de Clara Borges, sobrinha de Ana, enquanto Anunciação traz uma aquarela da Serra da Moeda assinada pela artista Suzana Carvalho.
Sem investidores externos, o projeto é financiado pela própria família. Cada etapa — da implantação do vinhedo à expansão da estrutura — acontece de forma gradual, respeitando os recursos disponíveis e o ritmo necessário para garantir consistência ao trabalho.
Além da expansão do vinhedo, os próximos passos incluem a construção da cantina própria e de uma estrutura de enoturismo, pensada para receber visitantes de forma intimista, em contato direto com a paisagem e com a história do lugar.
O valor de acreditar na própria visão
Talvez o maior ensinamento da trajetória de Ana Borges esteja justamente na sua disposição para seguir um caminho próprio.
Ao longo dos últimos anos, ela poderia ter optado pelas variedades mais populares, pelos estilos mais fáceis de comercializar ou pelas soluções mais previsíveis. Em muitos momentos, isso teria reduzido custos e acelerado resultados.
Mas Ana não decidiu seguir esse caminho. O seu projeto nasceu da vontade de entender profundamente o potencial do território, experimentar novas possibilidades e construir vinhos que expressassem sua própria visão sobre o que o vinho pode ser.
Para os alunos da Eno Cultura, sua história traz uma mensagem importante: conhecimento é fundamental, mas a inovação surge quando alguém está disposto a transformar conhecimento em ação.
No caso de Ana Borges, essa transformação começou com um sonho compartilhado em uma conversa sobre vinho. Hoje, ela se materializa em um vinhedo que cresce na Serra da Moeda, carregando a marca de quem decidiu trocar a segurança do caminho conhecido pela construção de algo verdadeiramente autoral.
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